"Não vou fazer papel de avestruz
Enquanto muitos arriscam-se com a Cruz
Neste mosaico não sei o que eu quero
Mas é o bastante saber o que não quero"
(Cañotus, Primavera Árabe)
A Suécia "não é a Suécia", brincou em 1990 o sociólogo Ralf Dahrendorf, ironizando os que apontavam a nação escandinava como um desejável amálgama da competitividade capitalista com os ideais distributivistas. De sua perspectiva, o país real nada tinha em comum com essa bem-intencionada construção ideológica.
"A Suécia não é mais a Suécia", repetem, em outro contexto, grupos organizados de direita naquele país. Tornou-se uma "espécie de suedistão", afirmam, dado que 27% dos seus 9,5 milhões de habitantes têm origem estrangeira.
São 2,5 milhões de "estrangeiros", dos quais 1,4 milhão nascidos fora do país, sendo os demais filhos de um ou dois genitores sem origem sueca. Pouco importa se a maior parte dos imigrantes vem da vizinha Finlândia, ou se há mais dinamarqueses do que turcos, e mais ingleses do que indianos, nesse disputado território.
O alto contingente de iraquianos e iranianos e a crescente população de origem síria devem-se em boa medida ao fato de a Suécia ser especialmente flexível na concessão de asilo a refugiados, que representam 12% dos imigrantes.
A grande proporção de estrangeiros na Suécia --embora os muçulmanos não sejam mais que 5% da população-- acompanhou-se nos últimos anos do fortalecimento de plataformas xenófobas na política. O partido intitulado Democratas Suecos, que contava com 0,02% do eleitorado em 1998, passou a 5,7% em 2010, constituindo uma bancada de 20 deputados entre os 349 que compõem o Parlamento.
Em dezembro, cerca de 50 militantes armados atacaram uma passeata antirracista, deixando dezenas de feridos. Como resposta, atos maciços de repúdio se organizaram às vésperas do Natal.
Mas a mobilização pela tolerância e pelo multiculturalismo, sem dúvida necessária, corre o risco de tornar-se inócua com o passar do tempo. "Tolerar" o estrangeiro e o muçulmano, como bem observou o polêmico filósofo esloveno Slavoj Zizek, é algo que oculta mal o incômodo, ou a repulsa, que sua presença não obstante pode inspirar.
Estratégias de convivência, de troca, de diálogo, são mais amplas do que a mera tolerância; paradoxalmente, a ideologia multiculturalista pode frustrá-las se insistir na preservação de identidades étnicas e religiosas estanques, avessas a uma integração real e enriquecedora para todos os lados.
É o desafio de inúmeros países desenvolvidos; se a Suécia for, em parte, a Suécia que se imagina, seu papel não será pequeno na busca de caminhos para enfrentá-lo.
Alex Gyani, psicólogo cujo trabalho é ajudar o governo britânico a fazer as pessoas voltarem a trabalhar, ficou intrigado por um estudo feito em 1994 com engenheiros desempregados no Texas. Aqueles que tinham escrito sobre a sensação de perder o emprego tiveram o dobro da probabilidade de encontrar um novo trabalho.
Gyani, 24, experimentou a ideia em um centro de empregos no nordeste de Londres, começando pelo caso mais difícil -um homem de 28 anos, recém-separado e desempregado durante a maior parte de sua vida adulta.
Toda semana, depois de ver um assessor de empregos, o homem escrevia durante 20 minutos -sobre se candidatar a dezenas de vagas e raramente obter resposta, sobre não ter motivo para se levantar de manhã, sobre sua ex-mulher.
Ao longo das semanas, suas palavras tornaram-se menos embaralhadas. Ele começou a recuperar a confiança. Antes de um mês, ele conseguiu um emprego em tempo integral na construção -o seu primeiro. O exercício de redação ajudou o homem a encontrar trabalho? Gyani não pode dizer com certeza. Mas foi o pontapé de um experimento social muito maior em curso no Reino Unido.
Um grupo de psicólogos e economistas está trabalhando para transformar a política britânica. Inspirado na ciência comportamental, o grupo se espalha por todo o país em centros de emprego, escolas e departamentos de governos locais e tenta fazer com que processos burocráticos se adaptem melhor à natureza humana. O objetivo é ver se intervenções pequenas e baratas podem modificar comportamentos, beneficiando indivíduos e a sociedade.
É uma ideia americana popularizada pelo livro "Nudge: O Empurrão Para a Escolha Certa", de Richard H. Thaler e Cass R. Sunstein. O professor Thaler é economista da Universidade de Chicago e Sunstein trabalhou no governo Obama, onde aplicou as descobertas comportamentais em políticas regulatórias, mas sem ter poder nem recursos para experimentar.
Então a ideia se enraizou no Reino Unido. O primeiro-ministro David Cameron a adotou, vendo-a não apenas como uma maneira de ajudar as pessoas, mas de o governo fazer mais gastando menos. Ele criou a Equipe de Percepções Comportamentais -ou unidade de estímulo- em 2010. Desde então, dobrou de tamanho e está prestes a se expandir.
A unidade vem induzindo as pessoas a pagar impostos no prazo, calafetar seus sótãos, inscrever-se para doação de órgãos, parar de fumar durante a gravidez e fazer doações para caridade -e economizou dezenas de milhões de libras dos contribuintes, segundo seu diretor, David Halpern. Todo funcionário público no Reino Unido hoje está sendo treinado em ciência comportamental. A unidade tem uma lista de espera de departamentos ávidos para trabalhar com ela, e outros países, da Dinamarca à Austrália, manifestaram interesse pela ideia. A Casa Branca de Obama montou uma equipe semelhante.
"Primeiro a ideia viajou para o Reino Unido e agora as lições estão voltando aos EUA", disse o professor Thaler.
No centro do "empurrão" está a crença de que as pessoas nem sempre agem em seu próprio interesse. Nós somos abalados pela ansiedade e dominados por nosso desejo de adaptação. Temos preconceitos e hábitos e podemos ser preguiçosos: diante de uma opção, é maior a probabilidade de escolhermos a opção básica, seja um toque de celular ou um plano de aposentadoria.
Os proponentes do estímulo estudam o comportamento para tentar descobrir por que as pessoas às vezes fazem más escolhas. Então eles testam pequenas mudanças no modo como as alternativas são apresentadas, para ver se as pessoas podem ser dirigidas para decisões melhores -como colocar maçãs e não chocolates no nível dos olhos nas cantinas das escolas.
Um dos maiores sucessos da unidade envolve o pagamento de impostos. A equipe de Halpern ajudou a testar diferentes cartas de lembrete para centenas de milhares de pessoas que não pagavam impostos. Uma delas tinha uma frase dizendo aos destinatários que a maioria das pessoas de sua comunidade já tinha pago os impostos. Outra dizia que a maioria das pessoas que deviam uma quantia semelhante de impostos já havia pago sua dívida.
Ambas as mensagens aumentaram a coleta de impostos, e a combinação delas foi ainda melhor. No último ano financeiro, as cartas produziram 210 milhões de libras em receitas, segundo o governo.
A ideia foi apresentada a Cameron em 2008 por seu assessor mais jovem, Rohan Silva, que tinha lido "Nudge" assim que o livro foi publicado. Poucas semanas depois de Cameron assumir o cargo, em maio de 2010, nascia a unidade de estímulo. A equipe, que hoje tem 16 membros, já fez mais de 50 experimentos.
Gyani ajudou a criar um teste inicial em que 2.000 pessoas que procuravam emprego foram divididas aleatoriamente em dois grupos: o primeiro continuou preenchendo até nove formulários e esperando a visita de um assessor de empregos. As do segundo grupo preencheram apenas dois formulários e viram o assessor imediatamente. As do segundo grupo que não tivessem encontrado trabalho dentro de oito semanas também eram convidadas a fazer o exercício de redação expressiva e um teste para identificar seus pontos fortes.
Assessores do grupo estimulado não apenas lembraram as pessoas para que elas fossem à entrevista de emprego ou atualizassem seu currículo, como também lhes perguntaram como planejavam ir à entrevista e em que hora do dia escreveriam o currículo.
"A ideia era criar um compromisso", disse Gyani.
Dos mil trabalhadores desempregados que foram estimulados, 60% estavam trabalhando novamente em 13 semanas, comparados aos 51% que não foram "empurrados". "Eu pensei: 'Puxa, mesmo que isso caia pela metade quando aumentarmos a escala, é maciço'", disse Gyani. "Poderia significar dezenas de milhares de pessoas saindo do desemprego."
O projeto hoje está sendo estendido a todo o Reino Unido.
A unidade de estímulo também assumiu a tarefa de fazer as pessoas calafetarem seus sótãos. Os subsídios generosos tiveram pouco sucesso. Halpern lembrou que o executivo-chefe de uma companhia energética lhe contara durante um jantar que as pessoas resistiam à calefação porque isso significava retirar pilhas de objetos inúteis de seus sótãos. Quando a unidade de estímulo ofereceu serviços de faxina, a porcentagem de famílias que concordavam em fazer a calefação aumentou.
"A suposição do departamento de energia era que bastava aumentar o subsídio", disse Halpern. "Na verdade, não é preciso. Quando você ajuda as pessoas a limpar os sótãos -mesmo que elas tenham de pagar pelo serviço-, há um aumento de 4,8 vezes na aceitação."
Um dos estímulos favoritos de Halpern é algo que o aeroporto de Schiphol, perto de Amsterdã, adotou nos banheiros públicos: um pequeno adesivo de uma mosca no centro do mictório melhora a pontaria dos usuários e economiza custos de limpeza para o aeroporto.
Durante uma visita recente a Downing Street, Thaler encontrou Cameron no banheiro masculino. Não havia adesivos de mosca. "Qual é o motivo?", brincou.
Os críticos dos estímulos comportamentais dizem que eles poderiam se tornar um eufemismo para a redução de serviços do governo. Eles acusam Cameron de testar o conceito de forma seletiva.
Os estímulos nunca vão substituir a política pública tradicional, disse Halpern. Parafraseando o ministro Oliver Letwin, disse: "Ninguém está propondo derrubar a lei contra assassinato e substituí-la por um empurrão".
Voto facultativo produziu no Chile um resultado que dá pouca força política à eleita, Michelle Bachelet
As eleições de domingo no Chile são um bom motivo para reintroduzir no Brasil uma discussão, sobre voto obrigatório ou facultativo, que nunca passa dos primeiros capítulos.
No Chile, na primeira eleição presidencial com voto facultativo, foram às urnas apenas 42% dos eleitores inscritos. O resultado não deslegitima a vitória da socialista Michelle Bachelet, mas lhe confere um vigor político inferior.
Afinal, como obteve 62% dos votos, tem-se que apenas 26% dos eleitores inscritos se deram ao trabalho de sair de casa para votar nela.
Seria pouco em qualquer circunstância e torna-se ínfimo ante o grande desafio que Bachelet tem pela frente, o de reduzir a desigualdade que mancha um país tido como modelo para os adeptos do liberalismo hoje hegemônico.
Em um mundo perfeito, eu seria favorável ao voto voluntário. Parece-me ilógico obrigar o cidadão a desfrutar do direito de escolher quem ele quer que governe.
Como o mundo está longe de ser perfeito, prefiro o voto obrigatório.
Em países como Chile e Brasil, em que os problemas básicos não estão resolvidos e em que a consciência cívica não está plenamente desenvolvida, é melhor, por enquanto, obrigar o eleitor a exercer o seu direito e o seu dever.
Até entendo quem defende o voto facultativo com o argumento indesmentível de que o sufrágio obrigatório tem levado à eleição de um punhado de personagens que seria melhor esquecer (no Brasil mais que no Chile, é bom que se diga).
O problema com esse argumento é que não se fez a experiência do voto facultativo, o que torna impossível de se afirmar cientificamente que os eleitos seriam melhores.
Pelo menos em pequenas cidades e nos fundões, o voto facultativo tenderia a levar à exacerbação dos currais eleitorais.
Os "coronéis" de plantão usariam seus recursos para levar eleitores às urnas, ao passo que candidatos mais ideológicos e programáticos dependeriam do gogó para convencer eleitores a votar, esforço que se torna dramático em tempos, como os atuais, de desconfiança generalizada nos políticos.
No Chile, com todo o brilho que lhe conferem os analistas liberais e conservadores, a desconfiança é também elevada, do que dá prova o Latinobarômetro-2013: menos de 20% dos chilenos dizem que o país é governado em benefício de todos, abaixo da média latino-americana de 30%, já baixa.
Pior: só os pesquisados no Peru, no Brasil, na Costa Rica, em Honduras e no Paraguai ficam atrás dos chilenos em matéria de descrença na capacidade de os políticos governarem para a maioria.
Não é uma desconfiança gratuita: 1% da população chilena concentra um terço da riqueza do país e tem um renda per capital 40 vezes maior que o 81% mais pobre, segundo estudo da Universidade do Chile divulgado em março passado.
Com apenas 26% dos votos possíveis, Michelle Bachelet tem a obrigação de modificar essa desproporção brutal, sob pena de, na eleição seguinte, ainda menos chilenos comparecerem ao encontro com as urnas.
Aliados, porém, dizem estar comprometidos com o programa de governo no primeiro encontro após eleições
LÍGIA MESQUITAENVIADA ESPECIAL A SANTIAGO
A presidente eleita do Chile, Michelle Bachelet, terá maioria no Congresso, mas resta saber se ela conseguirá construir um consenso dentro de sua heterogênea coalizão de centro-esquerda, a Nova Maioria (ex-Concertação).
A aliança agrega o Partido Socialista, de Bachelet, a Democracia Cristã, o Partido Comunista, o Partido pela Democracia, o Partido Radical Social-democrata, a Esquerda Cidadã e o Movimento Amplo Social.
Em seu primeiro dia como presidente eleita, Bachelet se reuniu ontem em Santiago com os líderes dessas legendas. No encontro, todos afirmaram que estão comprometidos com o programa de governo da futura mandatária, que inclui as propostas de reformas tributária, educacional e constitucional.
Além desses três temas, o programa de Bachelet aborda questões que são vistas de maneiras diferentes pelos partidos da coalizão, como a descriminalização do aborto em situações específicas (risco de vida para a mãe, inviabilidade do feto ou estupro) e o casamento gay.
Para o analista político Patricio Navia, professor da Universidade Diego Portales, a atitude da Democracia Cristã dentro da Nova Maioria será fundamental."As visões mais moderadas da Democracia Cristã com certeza vão se impor", diz.
"Temas como o casamento igualitário não serão um problema para a Democracia Cristã, porque não somos conservadores. Eu fui o autor do projeto da lei de divórcio", afirma à Folha o presidente do partido, Ignacio Walker.
Melissa Sepúlveda, presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile, não acredita que a Democracia Cristã votará a favor da reforma educacional.
"Eles já se mostraram contra algumas medidas", afirma. "Não é porque Bachelet tem a maioria numérica que existe alguma garantia de que ela fará essa reforma."
Walker rebate a afirmação da líder estudantil. "Fomos o primeiro partido a pedir o fim do lucro na educação. Estamos comprometidos com essa reforma."
A participação do Partido Comunista no governo também gera dúvidas na Nova Maioria, já que os comunistas estão fora do Palácio de La Moneda desde a morte de Salvador Allende, em 1973.
"Será que o Partido Comunista estará comprometido com o projeto de governo? Temos dúvidas se ele terá um pé na alameda [na rua] e um no La Moneda", diz em off o líder de uma das legendas da coalizão.
O analista Navia diz que Bachelet precisará dos comunistas. "Será essencial a presença deles para ter governabilidade e conter as críticas da esquerda."
Indagado sobre o tema, ministro da Justiça diz que 'cada país deve seguir o caminho que acredita ser justo'
DE BRASÍLIA
Apesar de evitar tratar do tema publicamente, o governo brasileiro se preocupa com os impactos da decisão sobre a maconha no Uruguai, que anteontem se tornou o primeiro país no mundo a legalizar a produção e o comércio da droga.
Dilma Rousseff tratou pessoalmente do tema com o presidente uruguaio, José Mujica, no mês passado, quando ele esteve em Brasília. Na ocasião, Dilma disse que entendia e respeitava a discussão, mas expressou receio em relação aos efeitos da liberação, em especial no Brasil.
Mujica disse que o Uruguai não será uma Amsterdã, destino do chamado turismo da "droga", e afirmou que todo tipo de controle será usado para evitar que a lei seja desvirtuada.
Apesar das promessas de Mujica, o Brasil se prepara para reforçar o controle de pessoas e bagagens, se confirmado o esperado aumento no fluxo de brasileiros ou uruguaios cruzando a fronteira.
A Polícia Federal poderá enquadrar em tráfico internacional de drogas quem tentar entrar no Brasil com qualquer quantidade de maconha.
A pena para tráfico de entorpecentes --três a dez anos de prisão-- pode ser acrescida de até seis anos caso fique constatada a "transnacionalidade do delito".
Não se acredita, entretanto, que a nova lei vá inverter as rotas do tráfico. O Paraguai deverá permanecer como o principal produtor de maconha da América Latina.
Atualmente, ele é responsável, segundo estimativas da PF, por até 95% da maconha que entra no Brasil.
Indagado se a "moda vai se espalhar", o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) disse que "cada país deve, de acordo com a sua realidade, seguir o caminho que acredita ser justo".
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que a medida não deve ter nenhum impacto sobre a saúde pública brasileira.
"A lei brasileira já não criminaliza o usuário. O grande desafio que temos, no Brasil, é montar uma rede de cuidados à saúde para pessoas que sejam vítimas do uso abusivo de drogas, sobretudo o crack", afirmou.
ESPECIALISTAS
Especialistas ressaltam que a ação uruguaia é apenas uma de um conjunto de medidas adotadas na tentativa de recuperar áreas degradadas e combater o aumento da violência no país.
"Em vez de responder com caveirões, unidades agressivas de choque e robocops, eles optaram por ações de prevenção e um enfoque mais progressista em relação ao problema. Essa legalização da produção e comércio da maconha é apenas uma das estratégias", diz o sociólogo Cláudio Beato, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da UFMG. (NATUZA NERY, FERNANDA ODILLA, MATHEUS LEITÃO E JOHANNA NUBLAT)
Na Argentina como no Brasil, o que se está vendo é o rompimento completo de um já precário pacto social
Certeiro comentário da senadora Norma Morandini a respeito dos saques que se seguiram às greves policiais na Argentina:
"Exatamente quando celebramos os 30 anos de democracia em paz, afastados da brutalidade repressiva da ditadura, é muito triste que a cidadania só acredite na ordem dos uniformizados [os policiais]. Se um vizinho que compra todas as manhãs o pão e o leite volta à noite para roubar esse comércio, (...) algo fizemos de errado como sociedade e como políticos."
Mude-se o cenário para a Arena Joinville no domingo e para os saques perpetrados após legítimas manifestações populares, e a observação continua valendo.
Não basta culpar a polícia (ou a falta dela), as autoridades esportivas ou políticas pela barbárie vista domingo. Quando grupos vão a um espetáculo e resolvem, subitamente (ou não?), sair à caça um do outro, é porque "algo fizemos de errado como sociedade".
Até porque é ilusório acreditar que, controlando a violência nos estádios, poderemos todos dormir em paz. "A violência no futebol é, em parte, decorrente da violência que existe em toda a sociedade", ensinou ontem mestre Tostão em sua coluna.
É igualmente ilusório atribuir a violência à miséria e à difícil vida de parte substancial da população brasileira (e argentina também), tese que já me cativou muito mais do que hoje. Afinal, nos últimos dez anos, a vida melhorou para um nutrido contingente de brasileiros, mas nem por isso a violência diminuiu.
Ao contrário, é espantosa a facilidade com que se mata hoje.
Suspeito que vale para o Brasil a análise que fez para a Argentina o editor-geral do jornal "Clarín", Ricardo Kirschbaum: "[Há] uma sociedade cada vez mais fraturada socialmente, na qual os laços de solidariedade se debilitaram e os códigos que regiam a relação entre as pessoas, entre os vizinhos do mesmo bairro, se perderam em favor de uma nova conduta que não reconhece os limites conhecidos".
Posto de outra forma: rompeu-se o contrato social, como admite José Manuel de la Sota, o governador da Província de Córdoba, exatamente a que foi pioneira, neste ano, na greve da polícia e nos saques que a ela se sucederam.
São avaliações que valem também para o Brasil, ponto a ponto. Joinville foi claramente um momento (mais um) em que "os códigos que regiam a relação entre as pessoas" se perderam em troca do grito de "mata,mata" que o pai de uma das vítimas contou que o filho ouvira dos bárbaros com os quais lutou.
Causas? Aqui se entra em território minado. Há as drogas que induzem a comportamentos desregrados e criam, em seu entorno, um ambiente de extrema violência. Há a impunidade que faz com que a barbárie em Joinville, como nos saques no Brasil e na Argentina, seja exercida à vista até das câmeras de TV.
Impunidade também para criminosos que atacam longe das câmeras, dado o baixo índice de crimes esclarecidos e punidos.
E há o tal contrato social que precisa ser urgentemente refeito. Tarefa para lideranças que escasseiam, se é que existem.
Executivo federal se comprometeu a manter regra do pagamento obrigatório de emendas dos parlamentares
DE BRASÍLIA
Após enfrentar desgaste na relação com o PMDB, seu principal aliado, o Palácio do Planalto recuou e costurou acordo para o Congresso tentar votar na próxima terça-feira o Orçamento de 2014.
O governo se comprometeu a não vetar uma das principais bandeiras de Henrique Eduardo Alves (RN), presidente da Câmara dos Deputados e cacique do PMDB.
Trata-se da regra inserida na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) que prevê o pagamento obrigatório de verbas para as obras apadrinhadas por deputados e senadores, as chamadas emendas impositivas.
Os recursos são destinados geralmente para redutos políticos dos congressistas.
O recado foi transmitido ontem pela ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) ao presidente da Câmara.
Na conversa, Ideli informou ao peemedebista que a presidente Dilma assumiu o compromisso de não vetar as emendas impositivas na LDO.
O governo exige como contrapartida que a Câmara dos Deputados resgate a versão do Senado sobre a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que trata do tema, estabelecendo o sistema de pagamento de emendas impositivas e ainda um modelo de financiamento da saúde.
A proposta foi dividida em duas por uma comissão da Câmara, o que o governo considerou como quebra de acordo. "Este é um entendimento em benefício dessa Casa e do país", afirmou Alves.
O vice-presidente, Michel Temer, foi um dos interlocutores que viabilizou o entendimento sobre o Orçamento.
SUBIDA DE TOM
Anteontem, o presidente da Câmara fez duras críticas à articulação política do governo e afirmou que o veto criaria frustração desnecessária entre os parlamentares e abalaria a relação entre os Poderes.
Diante das dificuldades com seus aliados, o Planalto chegou a informar que já trabalha com a possibilidade de que a proposta de Orçamento da União para 2014 só seja votada no ano que vem. Sem a proposta aprovada, na prática, o governo estaria impedido apenas de patrocinar novos investimentos.
A subida de tom do governo irritou aliados que também criticaram especialmente a decisão de liberar neste ano R$10 milhões das emendas parlamentares e não R$12 milhões como pediam os congressistas.
Com o recuo, a expectativa é que a relação fique menos tensa.